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Michie Akama, uma educadora sonhadora à frente de seu tempo

Michie Akama acreditava que pelo conhecimento seria possível enfrentar uma realidade repleta de desafios (foto: arquivo Centro Educacional Pioneiro/Tatiana Maebuchi)

Nascida no Japão e formada em Educação, Michie Akama vem para o Brasil na década de 1920 com a família para trabalhar na lavoura de café. Aqui, ela se depara com uma realidade muito diferente daquela que ela conhecia de sua terra natal, pois as pessoas não tinham acesso à escola. “Começa daí, então, o sonho dela de querer fazer alguma coisa dentro de um contexto educacional”.

Quem conta esta história é Irma Akamine Hiray, ex-professora e atual diretora-geral do Centro Educacional Pioneiro, a antiga escola chamada Casa de Ensino de Corte e Costura, conhecida como Akama Gakuin, fundada por Michie.

A abertura da escola

Michie muda-se para São Paulo e começa com a escola Akama Gakuin, um centro de estudo e cultura voltado exclusivamente para o público feminino, que funcionava em regime de internato e teve vários endereços até se fixar definitivamente no bairro da Vila Clementino. As jovens mulheres – algumas de famílias que trabalhavam na lavoura – tinham aulas corte e costura, língua japonesa, línguas estrangeiras também (inglês e francês já naquela época), além de economia doméstica.

Mas o objetivo dela não era o ensino específico de corte e costura. Ela tinha uma visão maior e acreditava que por intermédio do conhecimento ela conseguiria dar condições para essas moças se tornarem bem preparadas.

Algumas práticas poderiam ajudá-las na economia doméstica da família quando se casassem. Na cultura japonesa, existem as conservas, o tsukemono. Dominar essa técnica serviria não só para a conservação dos alimentos, mas também para produzir produtos que depois pudessem contribuir com a renda familiar.

Essa escola foi crescendo com a ajuda da comunidade japonesa. Por isso, hoje existem ainda cerca de 70% nipo-descendentes entre os quase 800 alunos. Porém, Michie nunca quis que essa escola fosse nos moldes de uma escola japonesa. “Porque ela sempre dizia: eu sou a estrangeira nesse país”.

Apesar de pensar desta forma, ela mostra que tinha feito a escolha do lar, que não era mais o Japão. Quando o filho Antonio tinha oito anos, o leva ao país natal para que ele estudasse, mesma época em que o marido Juiji falece. “Ela volta para o Brasil por conta dessa escola de preparação de moças. A identificação com o país era muito forte, porque ela teve oportunidade”, comenta a diretora.

Michie Akama cria sua fundação e amplia escola

A Fundação Instituto Educacional Dona Michie Akama foi criada pela educadora para agradecer o país que a acolheu e a comunidade japonesa que ajudou a escola a crescer (foto: Tatiana Maebuchi)

“Em 1959, ela faz com que todo o patrimônio dela, que envolvia essa escola, se transformasse em uma fundação, a Fundação Instituto Educacional Dona Michie Akama. Ela entendia que se a escola que ela tinha até então foi construída com a ajuda da comunidade, não pertencia a ela, pertencia a todos nós. A fundação hoje é mantenedora do Centro Educacional Pioneiro”, explica. Era uma forma de mostrar a gratidão ao país que a acolheu e a todos que a ajudaram a construir todo esse legado.

Como fundação não se pode ter fins lucrativos. Não há aporte de capital estrangeiro e o valor arrecadado com a mensalidade reverte para a própria escola, “o que é motivo de muito orgulho. A gente tem condições de respirar educação”.

Ao longo do tempo, esse modelo de ensino para moças passa a não ter mais sentido, pois as pessoas começam a ter acesso à escolaridade. Em 1971, aos 68 anos de idade, Michie funda o Pioneiro, que oferece desde a Educação Infantil até o Ensino Médio e que nada mais é do que uma ampliação do antigo Akama Gakuin. “Nesse momento ela já está naturalizada e pode oficialmente abrir uma escola regular”, conta.

O próprio nome “Pioneiro”, que é “estar à frente”, tem uma grande identificação a educadora, com o legado que deixa. “Isso foi sempre muito inspirador para a gente, lutar contra todas as adversidades, mas principalmente ir em busca dos seus sonhos”.

E esta é a identidade do centro educacional. As famílias, então, que procuram a escola, mesmo as não orientais, desejam que os valores japoneses sejam desenvolvidos no ensino das crianças e jovens. “As questões da integridade, responsabilidade, coletividade, perseverança dizem respeito àquilo que sempre foi muito forte da cultura oriental e espelham aquilo que a gente acredita enquanto educação”. Em outras palavras, a escola é responsável pela formação do cidadão para que ele seja transformador da sociedade.

A atual diretora do Centro Educacional Pioneiro reforça que, na opinião dela, é importante para a continuidade desse trabalho a constituição de um organograma, composto pelo Conselho Curador, que é formado por quase 50 membros – inclusive Edson Akama, neto de Michie Akama, que é médico; e, dentro do Conselho Curador, há uma Diretoria Executiva, formada por altos executivos, empresários e consultores que estão na ativa. Todos eles – assim como Michie, que abre mão de um patrimônio que poderia ser dela como pessoa física – trabalham em prol da fundação e, pelo estatuto, não podem receber nenhum tipo de remuneração.

Continuidade

Vera Lucia de Felice foi diretora a partir de 1971 e sedimentou todo o trabalho idealizado pela fundadora. Com o falecimento de Michie em 2005, aos 102 anos, Elza Babá Akama – esposa do filho Antonio – assume a Direção Geral. Elza era educadora, foi referência na década de 1970 no ensino de Matemática e rendeu muitas conquistas ao Pioneiro.

Além isso, Antonio passa a se dedicar muito mais à parte administrativa da escola e fica encarregado de tudo aquilo que ela desenvolvia, frente ao Conselho e à Diretoria Executiva, junto sua esposa. Até que em 2010 Irma assume a Direção Geral e, aos poucos, Antonio e Elza vão se afastando por questão de idade – a rotina tinha se tornado muito intensa para eles.

Assim, existe uma grande preocupação em perpetuar toda essa história. No Dia da Escola, 18 de setembro, que é o dia do nascimento dela, são realizados eventos em que se faz uma retrospectiva. Em 2019, a fundação completa 60 anos e está preparando um documentário. “É algo que nós queremos deixar para que as próximas gerações saibam como tudo começou”.

Valores japoneses

Irma Akamine conta que Michie sabia o quanto a cultura japonesa poderia complementar a cultura brasileira. Surge daí a identidade da escola, cujos valores são aplicados no dia a dia. Nesse contexto, a diretora diz que é importante que esses valores japoneses sejam transmitidos aos funcionários para que eles compreendam melhor as famílias descendentes.

Por outro lado, a educadora imergiu na cultura brasileira. Por exemplo, ela faz o catecismo, a primeira comunhão e o batizado, pois desta forma entenderia melhor o povo. “Para a gente isso é muito precioso”.

Inspiração para educadores

“Era uma pessoa que sempre inspirou muito. Porque tudo o que ela falava era muito verdadeiro e ela era muito coerente, sua fala era totalmente integrada com sua ação”, declara Irma.

Existem boas histórias para se contar e usar como exemplo para as próximas gerações. “É muito importante eles entenderem que essa escola é o que é, porque a dona Michie acreditou, sonhou, idealizou, foi atrás, batalhou”.

Ainda na opinião da diretora, Michie tinha muito orgulho de tudo o que construiu, “porque ela falava daquilo com tanto amor; para ela os alunos eram sempre a referência. E as alunas falarem com muito carinho, respeito, de quanto ela ajudou”.

Legado para a comunidade

Em função de todo o trabalho que fez para a sociedade, em 2014, recebeu como homenagem a Praça Michie Akama, que fica no cruzamento da Rua Luis Gois com a Rua Domingo de Morais, em São Paulo. Lá está o monumento com o nome dela gravado, conseguido pelo vereador Aurélio Nomura, que é conselheiro da fundação – o pai dele, Diogo Nomura, que foi um deputado bastante ativo também fazia parte do Conselho Curador da escola.

Recebeu também condecorações não só pelo governo brasileiro, mas também pelo Japão, como a Comenda José Bonifácio (1967); a Medalha Anchieta, da Câmara Municipal de São Paulo (1973); a Comenda Zuihoushou de 5º Grau, do Governo Japonês (1973); a Medalha Ana Neri (1977); a Comenda da Ordem do Ipiranga, do Governo do Estado de São Paulo (1983); e uma homenagem da Reitoria da Universidade de São Paulo na Segunda Solenidade à Imigração Japonesa (2001).

Isso significa que Michie “foi uma pessoa de muita referência. Até hoje nós recebemos principalmente professores do Japão para conhecer o trabalho que ela desenvolveu aqui”. Nesse sentido, a escola “trabalha não só com os valores, mas prepara esses jovens para esse mundo, assim como ela acreditava que era o papel dela na década de 1930, quando tudo começou”.

Uma educadora que acreditava nos sonhos, batalhadora, que se adaptou à cultura e realidade brasileiras. Ensinou valores japoneses, desenvolveu um trabalho admirável e deixou todo esse legado e se tornou uma grande inspiração para a comunidade nipo-brasileira.

 

© 2018 Tatiana Maebuchi

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