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Japonês ou brasileiro?

Keith Miamura nasceu no Brasil, cresceu no Japão e voltou para a terra natal (foto: Tatiana Maebuchi)

Nascido no Brasil, Victor Keith Miamura é yonsei e, logo aos dois anos de idade, foi morar no Japão com seus pais, no fim dos anos 1980. Cresceu em Aichi, na cidade de Toyokawa.

“Nessa época eu tive que fazer uma cirurgia de apêndice. Aí, para pagar a cirurgia, pegaram dinheiro emprestado e depois para poder pagar a dívida eles decidiram ir para o Japão”, conta.

Japonês ou brasileiro?

No Japão, Keith diz que não sabia bem que era brasileiro e que perguntava para a mãe se o primeiro nome era mesmo Victor. Além disso, ele não tinha essa questão de identidade muito clara na cabeça também pelo contato que teve com a cultura brasileira. “Na época era só TV que tinha. Aí quando você vê alguma coisa do Brasil você vê mais negros ou loiros, nunca é asiático. Então você pensa assim: ‘pô, brasileiro? Eu olhava no espelho e a maior cara de japonês aqui!’”.

Apesar disso, na escola, poucos sabiam que o primeiro nome dele é Victor. E no registro japonês ficaram o sobrenome e nome, Miamura Keiichi, um pouco diferente da grafia original, que é em inglês.

“Quando eu fiz uns oito anos, eu vim passear aqui uma vez.” E ele pensava que seria o único nipônico no Brasil, “porque – querendo ou não – não sabia que era assim”. Mas, ao passar em frente a uma escola que tradicionalmente é frequentada por nikkeis brasileiros, teve uma surpresa. “’Quanto japonês!’ Aí que comecei a mudar um pouquinho, mas tinha uma imagem bem diferente do Brasil. Era tudo novo, né?”

A segunda vez foi quando tinha 14 anos, quando Keith conta que começou a perceber melhor. “Voltei aqui com meus pais e aí que olhava o passaporte. Acho que era mais alguma coisa assim. Mas eu mesmo não tinha muita noção, tipo ‘ah, eu sou brasileiro’, não sentia muito quando era mais novo, só depois que cresci um pouquinho que comecei a sentir mais”, diz.

Nesse segundo passeio no Brasil, a mãe decidiu que iriam voltar. “Quando minha mãe falou que ia voltar pra cá, eu não abracei essa ideia de jeito nenhum.” Até terminar a 8ª série e se despedir do Japão (onde o ensino é até a 9ª série), Keith confessa que estava triste, mas quando chegou ficou mais tranquilo.

E Miamura comenta o que mudou depois de perceber sua verdadeira nacionalidade. “Ficou mais na consciência que ‘acho que sou brasileiro mesmo’, comecei a entender mais. Mas relação com ninguém não mudou nada”, conclui.

Retorno ao Brasil

“Na verdade, meus pais voltaram por minha causa também. Lá eu tinha um pouquinho de problema na escola que até que eu aprontava bastante. Por isso que meus pais decidiram [risos] voltar”, revela Keith.

Lá no Japão, os pais dele trabalhavam o dia todo e ele ficava na creche – “geralmente essa molecada que fica na creche é que apronta”. Chegou a parar na polícia duas vezes, porque pegou “umas coisas em umas lojas”. Na segunda vez que foi pego, a mãe decidiu que eles deveriam voltar ao Brasil. “Hoje em dia eu meio que me arrependo, mas acho que é um aprendizado”, diz.

A decisão ganhou mais peso por outro motivo. O avô paterno de Miamura estava doente e principalmente o pai dele já tinha intenção de retornar.

Português

No grupo de amigos nikkei, apenas um ou outro sabe falar japonês e mesmo assim conversam em português.

“É que mesmo para mim está mais fácil falar em português, sabe? É que quando você não usa muito, você meio que perde o jeito. E como já estou aqui há bastante tempo, hoje em dia eu já penso em português. E para traduzir de japonês para português eu acho que é muito diferente.”

Além disso, falava mais português em casa também por causa do irmão, 12 anos mais novo, que tinha somente três anos quando veio ao Brasil.

Preconceito na escola

Quando acabava de chegar ao Japão, Keith não sabia falar português. “Só que aí comecei a aprender japonês, só que não conseguia identificar as duas línguas e separar”. Por isso, ele falava o tal do “batchanês” (referência a bachan que no Brasil mistura os dois idiomas na fala). “Então eu falava: ‘pega o chauan’, só que aí ninguém entendia”.

“Foi mais brincadeira e só foi uma época também. Aí depois acho que foi tranquilo”, diz. “Nunca sofri muito preconceito por causa disso, por ser brasileiro”.

Porém Miamura conta que os outros brasileiros que entravam na escola, que tinham mais sotaque ou aparência de estrangeiro, sofriam mais preconceito. Já americanos e europeus não eram discriminados.

Arubaito no Japão

Com a ideia de juntar dinheiro para comprar um carro, Keith decidiu ir trabalhar no Japão. O pai dele já estava lá e fez essa proposta, que contava com um “bom” salário.

Assim, ficou um pouco mais de um ano lá trabalhando em fábrica. “Como eu já sabia japonês perfeitamente e eles achavam que eu falava bem português, já me colocaram para ser líder da seção onde tinha brasileiro”.

Salão de cabeleireiro e adaptação no Brasil

Keith chegou a fazer um curso profissional de cabeleireiro em japonês durante cerca de um ano. Foi a partir daí que passou a se adaptar melhor à vida no Brasil e a se sentir mais confortável em se relacionar com as pessoas.

“Comecei a sair mais do bairro, a fazer mais amizade com o pessoal daqui... Minha bachan praticava Seicho-No-Ie, aí comecei a ir e a fazer mais amizades também, e começou a fluir mais”, revela.

Assim, teve dois endereços com o antigo nome de Jidai na região da Vila Clementino, em São Paulo, onde também está localizado o atual salão, agora chamado Keizen.

No início, o pai cuidava da parte administrativa. Depois que ele foi para o Japão, a mãe passou a ajudá-lo.

Atualmente, Keith toca o salão junto com a namorada. Lá, a maioria do público que recebem é nikkei, que representa de 80 a 90%, porque a clientela fiel foi se formando a partir de indicação de amigos de ascendência japonesa. Apesar disso, não descendentes também são bem-vindos a ouvir as histórias de um yonsei que ora é mais brasileiro e ora é mais japonês.

Keith toca o salão de cabeleireiro junto com a namorada (foto: Tatiana Maebuchi)

 

© 2018 Tatiana Maebuchi

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