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Crônicas Nikkeis #6: Itadakimasu 2! Um Novo Gostinho da Cultura Nikkei

Gohan com arroz

Por ter nascido e crescido no Brasil e por ter pais que sempre cultivaram a cultura de seus antepassados, só fui perceber que a culinária brasileira e a culinária japonesa eram distintas quando eu tinha mais ou menos sete anos de idade.

Nessa época um amigo meu, que não é nikkei, disse o seguinte sobre o nosso colega que, como eu, era um dos únicos nikkeis da cidade de Matão, interior de São Paulo:

“Cara, você não vai acreditar: ontem eu almocei na casa do Takeda e a mãe dele serviu arroz sem sal! Você acredita nisso?”.

Após perceber minha hesitação, ele ainda me disse: “Você não acha isso normal, acha?”.

Foi assim que, de queixo caído, descobri que a culinária brasileira e a culinária japonesa não faziam parte de uma mesma cultura, e que, principalmente, elas eram bem diferentes entre si.

E também foi assim que, bem mais tarde, pensando sobre esse assunto, percebi algo ainda mais curioso: que o modo tradicional de preparo do arroz – a base alimentar desses dois países – era a grande diferença entre essas duas culturas. Pois, enquanto uma prega o arroz soltinho e bem temperado, a outra diz que tem que ser grudadinho e sem tempero.

Diferenças essas, vale ressaltar, que apesar de sutis são gritantes a um paladar desavisado – que o diga esse meu amigo.

O sabor do gohan – que é o arroz japonês – é mais acentuado do que o do arroz brasileiro. Os seus grãos também são mais atarracados. Sua característica mais marcante é o fato de que, após preparado, eles ficam bem grudadinhos uns aos outros.

E o seu preparo é extremamente fácil. Basta ter uma panela elétrica ou de pressão, um pouco d’água, um punhado de arroz, vinte minutos de espera e está pronto.

Já o arroz brasileiro, para deixá-lo do jeito certo – soltinho e rachadinho no meio – é algo extremamente difícil.

Inclusive eu já acompanhei testes em que duas pessoas fizeram arroz brasileiro seguindo a mesma receita – quantidade de arroz, de sal, de água e de cebola –, o mesmo método – a altura do fogo, o tipo de panela e a sequência em que se colocam os ingredientes na panela – e a mesma cronometragem – momento de colocar a receita na panela, momento de colocar e de tirar a tampa da panela e momento de apagar o fogo –, e verifiquei que o resultado ficou totalmente diferente um do outro.

Enquanto um ficou soltinho e partidinho, o outro ficou estufado e empapado. Conclusão: fazer arroz brasileiro não é para qualquer um.

Enfim, não tem como comparar a exuberância do arroz brasileiro com a elegância do arroz japonês. Ainda mais se incluirmos as outras formas de preparo.

Por exemplo: no preparo do arroz brasileiro há quem inclua ovo, cenoura, salsinha ou cebolinha – sem contar os ingredientes do Arroz Carreteiro, do Arroz Farofado, do Baião de Dois etc. E no preparo do arroz japonês há quem inclua missô, gergelim e furikake – sem contar os vários ingredientes dos vários tipos de sushis.

Em relação a esses dois tipos de preparo mais tradicionais, eu nunca tive preferência. Pois para mim, eles são tão diferentes um do outro que os considero como pratos distintos. E sou até capaz de servi-los na mesma refeição: gohan com arroz.

Voltando ao começo da crônica:

Tempos depois, aquele meu amigo – o que não é nikkei – jantou em minha casa. E eu, por já conhecer o seu gosto, pedi para que minha mãe preparasse arroz brasileiro. Ela o fez. O meu amigo comeu e ainda o elogiou muito.

Mas não teve jeito. Mais tarde, soube por terceiros, que ele achou estranhíssimo o tempero que nós de casa usamos para a salada: o shoyu.

 

© 2017 Hudson Okada

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Brazil culture food Itadakimasu 2 Nikkei Chronicles rice

About this series

Atendendo àdemanda popular, estamos trazendo de volta este tema tão apreciado: comida! Itadakimasu 2! Um Novo Gostinho da Cultura Nikkei irá revisitar o papel da culinária na cultura nikkei. 

Convidamos você a enviar histórias e ensaios pessoais, memórias, artigos acadêmicos, críticas de restaurantes e outros trabalhos em prosa para compartilhar as suas perspectivas e experiências com comida.

Como a comida que você come expressa a sua identidade? Como a culinária ajuda a criar laços na sua comunidade e a unir as pessoas? Que tipos de receitas foram passadas de geração a geração na sua família?

As inscrições serão aceitas de 1º de maio até às 22 horas (horário de Brasília) de 30 de setembro de 2017.

Todas as histórias enviadas que atendam às diretrizes e critérios do projeto serão publicadas paulatinamente no Jornal Descubra Nikkei, como parte da série Itadakimasu 2

Para maiores informações, visite 5dn.org/itadakimasu2PT.

Confira estas outras séries de Crônicas Nikkeis:

#1: ITADAKIMASU! Um Gostinho da Cultura Nikkei 
#2: Nikkei+ ~Histórias sobre Idiomas, Tradições, Gerações & Raças Miscigenadas~ 
#3: Nomes Nikkeis: Taro, John, Juan, João? 
#4: Família Nikkei: Memórias, Tradições e Valores  
#5: Nikkei-go: O Idioma da Família, Comunidade e Cultura