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SABER ENVELHECER ... é uma arte

AIKO tinha apenas seis anos quando desembarcou com os pais e mais três irmãos no Porto de Santos (SP), no ano de 1927, proveniente do longínquo Japão. Apenas o irmão mais velho não os acompanhou por estar cursando faculdade. Naquela época, dizia-se no Japão que o Brasil era um país enorme, com muita terra, um lugar muito bom, com muitas riquezas.

D. Aiko

Criança ainda, iletrada e com um mundo de incógnitas e temores pela frente, misturado com sonhos e esperanças próprios da idade, logo deparou com a dura realidade ao defrontar com um país vasto, inóspito e totalmente desconhecido que era o Brasil. Trabalhou na roça desde pequena, mal pode aprender as primeiras letras, casou-se ainda moça através da vontade e arranjo dos pais, como era de costume, assumindo desde então as reponsabilidades de cuidar de uma nova família, com todas as implicações e complicações que o casamento acarretava naquela época, que previa, além de muitas obrigações, a de prover diariamente a alimentação de oito pessoas, que faziam parte da célula familiar.

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas e mesmo com filhos pequenos para criar, sempre foi uma guerreira, trabalhando ao lado do marido , de 10 a 12 horas diariamente, de sol a sol, sem folga nenhuma, na condução do pequeno negócio da família e mesmo quando ele passou a atuar como empregado, quando da mudança para a Capital de São Paulo, ela buscou uma atividade autônoma, como costureira, para ajudar no orçamento familiar, visto que os homens (marido e sogro) ganhavam muito pouco, por falta de especialização.

Com uma garra e força de vontade admiráveis, conseguiu fazer com que os cinco filhos estudassem em escolas públicas. E, todos eles, estimulados pelo sacrifício dos pais, foram trabalhar durante o dia e cursar a faculdade à noite, para obter o tão valorizado diploma de curso superior, preponderante para o sucesso em suas carreiras profissionais. Os três mais velhos se casaram e deram a D. Aiko netos maravilhosos, que também já se graduaram e estão muito bem encaminhados em suas carreiras. Até bisnetos ela já tem, proporcionando-lhe uma imensa felicidade e satisfação de ver a família frutificar, de forma harmoniosa e equilibrada e, principalmente, mantendo os laços familiares, tão valorizados pela cultura japonesa.

Mesmo assim, D. Aiko não se afastou de seus afazeres habituais. E, apesar de receber a sua pequena aposentadoria e podendo usufruir de um justo e merecido descanso, continua mantendo a sua rotina de anos, levantando-se de madrugada, indo à padaria, fazendo o café para os filhos solteiros que continuam morando com ela, preparando o almoço, lavando e passando, caminhando até a feira e ao supermercado e, ainda fazendo exercícios físicos no Centro Comunitário e, quando sobra um tempinho, ainda vai jogar gate-ball com seu grupo de amigos que vem se reduzindo cada vez mais nos últimos anos, por força de falecimento de um e de outros. “Está ficando sem graça. Só vai restar eu”, diz ela lamentando!

No entanto, o que ela mais aprecia hoje, além da convivência com os filhos, netos e bisnetas, é passear, viajar , frequentar restaurantes de vez em quando e participar de eventos no Kaikan da Associação de Nagasaki, em SP. Tem disposição para tudo isso e muito mais. Sua agilidade física e mental é digna de admiração, como demonstra a expressão que ela costuma proferir com frequência, retratando com fidelidade a filosofia de sua vida: “Deus poderá me levar a hora que quiser! Estou pronta, não tenho medo, pois acho que já cumpri todas as minhas missões aqui na Terra! “, soltando uma sonora gargalhada. “Até ao Japão já voltei três vezes!”, complementando o raciocínio.

D. Aiko, junto com a sua irmã, D. Tieko, e as bisnetas.

E D. Aiko tem “apenas” 96 anos.

Este introito foi de propósito para ressaltar que a velhice, hoje denominada simpaticamente de Terceira Idade, é uma fase da vida na qual um contingente cada vez maior de pessoas tende a ingressar. Ela tem encantos que uma nova visão do mundo e uma postura renovada ajudam a descobrir, levando alguns a considerá-la a “melhor idade”. Para aqueles que percebem a sua chegada, importante é o estado de espírito que acolherá essa nova fase, saber como irá aproveitá-la, se de forma intensa ou mais pacata, não importa se tem 70, 80 ou mais anos.

Pense você mesmo não como um velho, mas apenas como uma pessoa com um pouco mais de experiência. Em qualquer idade que tivermos, estamos sempre envelhecendo. Tire vantagens da sua idade e de seus conhecimentos. Viva plenamente essa idade mágica.

A propósito, a D. AIKO acima mencionada, que é também chamada carinhosamente de D.MARIA pelos mais próximos, é a minha querida mãe.

 

© 2017 Katsuo Higuchi

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