Elementos formadores do imaginário sobre o japonês no Brasil - Parte 3

By Rogério Dezem
1 Aug 2007

>> Parte 2

Imagens do Japão: japonismo, guerra, costumes, propaganda e perigo amarelo

A veiculação pela imprensa nacional de imagens e artigos relacionados ao Japão no período anterior a conflagração da Guerra Russo-Japonesa praticamente inexistia. O pouco conhecimento público que se tinha sobre as “coisas do Japão” advinha em sua maior parte de obras produzidas por autores estrangeiros, nacionais, que se faziam ainda veiculadas as imagens construídas a partir do japonismo , no qual o “outro”, no caso o japonês, é idealizado por seus atributos estéticos, vistos pelo Ocidente como exóticos. Apesar da idéia de “perigo amarelo” rondar o mundo, notamos que seus efeitos no Brasil – naquele momento e fora do estrito círculo diplomático e político – não alcançaram muita ressonância como nos Estados Unidos e outros países que já haviam recebido imigrantes japoneses em seu território. O imaginário nacional ainda estava em “lua-de-mel” com os valores retóricos e estéticos do japonismo . A intelectualidade e as autoridades políticas brasileiras somente começaram a dar conta do pesadelo do “perigo amarelo” a partir do momento em que se tornou eminente a vinda dos “embaixadores do vitorioso Japão” (imigrantes japoneses) para o Brasil com os acordos selados em 1907.

Desse modo, os anos de 1903 a 1908 representam um período de transformações na maneira como o japonês foi visto e representado no Brasil.

Que imagens sobre o japonês foram materializadas mediante a influência dos discursos produzidos e veiculados durante a guerra? Que novos discursos essas imagens ajudaram a construir ou desmistificar?

Devido à cobertura jornalística sustentada pelo O Malho e Revista da Semana a partir do início do conflito russo-japonês, os artigos e as imagens relacionadas ao Japão, até então inexistentes, passaram a ser publicados em quase todas as edições desses periódicos. Como foi visto, até em uma pesquisa de opinião entre leitores, o Escrutínio Russo-Japonez , foi veiculada pela revista O Malho . Grande parte do material editado sobre essa questão, foram reproduções da imprensa inglesa e francesa.

Foi nesse contexto de “dúvidas” que pairavam sobre quem seria o vencedor do conflito recém-iniciado que a revista O Malho , na edição de número 77, de cinco de março de 1904, publicou em sua capa uma charge de autoria de K. Lixto (1877-1957), um dos grandes nomes da caricatura nacional. Importante lembrar que foi nessa mesma edição que teve início o Escrutínio Russo-Japonez . Na charge, que mostra o representante “russo” em luta com o representante “japonês”, duas questões merecem a nossa atenção: o modo original como o desenho da capa da revista foi idealizado ao se utilizar a técnica chamada trompe d´oil , que possibilita inverter a página de maneira que um dos contendores fique por cima e outro por baixo, dando o leitor a “liberdade” para escolher o provável vencedor... A outra questão concentra-se na figura do representante “japonês”, que, se olharmos atentamente, veremos que na realidade se trata da figura de um “chinês”, pois a trança (herança da dinastia Manchu na China) denota esse aspecto. Brincadeira de K. Lixto ou isso seria resultado do desconhecimento com relação ao Japão e os japoneses?

A nosso ver, a imagem do japonês/chinês denota um certo “desconhecimento”, podendo ser considerada expressão do imaginário coletivo que, até certo ponto, ainda se mostrava ambíguo com relação aos orientais no Brasil.A princípio parece que não importava quem “vencesse” (ao longo da guerra nota-se que boa parte dos leitores da revista e da opinião pública “torcia” pelos japoneses) e que aos olhos do cartunista chineses e japoneses, ou seja, amarelos pareciam ser a mesma coisa. Confusão que, se realmente existia para alguns, foi desfeita após o término da guerra entre russos e japoneses.

“O Japão chinês”, charge de K. Lixto.

Como o objetivo de informar os leitores sobre quem era aquele “valente” oponente dos russos, foram publicados no decorrer da guerra uma série de artigos sobre os costumes japoneses. Quase nada se falava sobre a Rússia ou os russos. Parecia que a imprensa ilustrada nacional, acompanhando o espírito do escrutínio, estava vislumbrada com a possibilidade de um “país exótico e de raça amarela” vencer o “colosso branco russo”.

Em quase todas as edições do ano de 1904 dos periódicos pesquisados identificamos artigos e imagens sobre a guerra. Na revista O Malho , por exemplo, foram criadas colunas semanais com o título de “Desenhos Japonezes” e “Costumes Japonezes”, enquanto na Revista da Semana , os assuntos relacionados ao Japão faziam parte da seção “Curiosidades Mundiais”. O conteúdo dos artigos veiculados nessas colunas ainda idealizava os japoneses, não mais vistos sob a forma de uma inofensiva e misteriosa gueixa , mas também como “Os voluntários da morte”, expressão de um artigo publicado na coluna “Costumes Japonezes”, de O Malho em julho de 1904. O próprio título, “voluntários da morte”, para designar os japoneses se faz impactante. Percebe-se que a intenção dos redatores era demonstrar a “sensível moral japonesa” ao descrever a importância dada às questões ligadas à honra , valor essencial na cultura japonesa.

Segundo o artigo, era costume, caso um japonês fosse insultado ou cometesse algum ato que ferisse sua honra ou a de outro, se autopunir, como demonstração do reconhecimento do erro e da preservação da honra. Essa autopunição poderia se formalizar apenas em um ato simples de raspar a cabeça, ou, em casos mais extremos, terminar em suicídio. A “morte voluntária” no Japão – presente no imaginário japonês – era chamada de seppuku , que significa “ventre cortado” (leitura à moda chinesa, mais elegante e sábia), passando a ser conhecida no Ocidente pelo nome de hara kiri (leitura vulgar ocidentalizada). Costume que “mesmo adoçados pela civilisação ocidental” não deixava de ser extraordinário, podendo, segundo o autor (desconhecido) do artigo, servir de lição aos brasileiros “habituados a ver falhar a justiça publica, e até Divina (!)”1 .

A utilização de imagens de mulheres ocidentais em trajes típicos japoneses foi moda na Europa nas décadas de 1860 e 1870, quando o japonismo estava em voga. Persistindo no imaginário coletivo nacional pelos traços e artigos dos periódicos, que, em tempos de guerra, via no Japão a personificação do soldado e em tempos de paz apelava para a figura da gueixa . Exemplo dessa persistência foi a publicação em dezembro de 1905 do soneto “Gueisha – impressão”, de autoria de Olgario Carneiro da Cunha. No soneto, o autor descreve uma suposta cena, “inesquecível” para ele, na qual um marinheiro deposita deposita um “sello breve” na fronte de uma “mimosa gueisha scismadora e bella” que vivia no “Japão sombrio”. Essa visão fez com que o autor, nas últimas linhas do soneto, repetisse consigo mesmo extasiado que gostaria de “ser marinheiro”.2

A simpatia pelo Japão e os japoneses também pode ser vista na publicidade dos mais variados produtos publicada nas revistas ilustradas, que se utilizavam não só da imagem do japonês , mas também deste adjetivo para nomear alguns produtos. Esse foi o caso do Sabonete Japonez . As frases curtas de sua propaganda se fizeram constantes na revista O Malho 3 , transformando o sabonete em um produto quase milagroso :

    “O Sabonete japonez – Dá a cutis belleza, attractivos e encantos”
    “Torna os cabellos sedosos e perfumados”
    “Torna a pele fina e acetinada”

Três anos após o final da guerra, em 20 de junho de 1908, logo após a chegada da primeira leva de imigrantes japoneses no Brasil, o xarope Bromil em sua propaganda “Até no Japão!”4 , publicava uma cena na qual aparecem uma gueixa e um oficial da marinha brasileira conversando sobre o clima do Brasil e as propriedades “milagrosas” do xarope. Notamos nessa representação a persistência de um imaginário ainda associado a idealizações baseadas em histórias como da ópera Madama Butterfly (1904) de Giácomo Puccini.

No início de 1908, O Malho publicou uma outra interessante propaganda de remédio intitulada “Entre Asiaticos”5 , na qual, pela primeira vez, identificamos as figuras de uma mulher japonesa e de um chinês. No diálogo entre os dois representantes da “raça amarela”, ao ser questionada pelo chinês se estava no Brasil também para “povoar o solo”, a japonesa responde negativamente, dizendo ser “rica o bastante” e “não precisar trabalhar” Podemos afirmar que nesse curto, mas simbólico diálogo ocorre a síntese do modo pelo qual eram avaliados os chineses, de tranças e em uma categoria abaixo dos japoneses , vistos como ricos e representados (ainda) pela figura feminina .

Nos certificamos que mesmo após as transformações no cenário internacional e nacional ocorridas, algumas imagens relacionadas ao “amarelo” persistiram enquanto outras desapareceram da imprensa ilustrada. O imaginário relacionado a imagem do chinês/chim ainda carregava os estigmas dos debates ocorridos trinta anos antes (Questão Chinesa, 1879), assim como no caso do japonês persistia a figura feminina e exótica. No entanto, após a Guerra Russo-Japonesa (1904-1905) criaram-se “novas imagens” do Japão, contribuindo para dissociar no imaginário nacional a sua imagem da dos chineses.

Podemos afirmar que, até aquele momento e mesmo depois, nenhum elemento estrangeiro foi em tão curto espaço de tempo (1903-1905) retratado com tanto entusiasmo e euforia no Brasil como os japoneses. Notamos que antes da chegada dos imigrantes japoneses ao país, as imagens veiculadas pela imprensa relacionadas a esse elemento ainda tinham um ar de exótico, de maravilhoso, feminino. Boa parte da opinião pública alimentava-se dessa forma de idealização da figura do japonês, que, ao desembarcar no Brasil, causou “estranhamento”.

Apesar do Japão ter se tornado uma potência, modelo de progresso a ser seguido, a chegada dos primeiros imigrantes japoneses colaborou para a diminuição da distância entre o “real e o imaginário”. O contato com o “real” fez com que esse elemento passasse a ser visto por parte da imprensa ilustrada – que até então o exaltara – de forma estigmatizada. Resgatou-se o arsenal de estereótipos utilizados anteriormente contra os chineses e agora, em um outro contexto, eram adaptados aos japoneses.

Exemplo dessas mudanças pode ser visto no cartum “Immigração Japoneza”, publicado na revista O Malho , em dezembro de 19086 . Muito parecidas com os cartuns publicados pela Revista Illustrada no final da década de 1870, as imagens e os discursos se fazem carregados de marcas negativas inspiradas em questões raciais, religiosas, culturais e, sem falar, nas questões de concorrência trabalhista, na qual o japonês aparece como um sério concorrente do trabalhador nacional por conseguir “sobreviver” com salários mais baixos. A imagem desse imigrante em solo brasileiro passou a ser associada a de seu país, configurando-se em um elemento muito mais “perigoso” do que o chinês.

A idéia de “perigo amarelo” que até então vinha sendo debatida e combatida em países como os Estados Unidos tornava-se uma (possível) realidade no Brasil; pois deixava de ser uma figura “imaginada” pelos intelectuais, políticos e periodistas nacionais para se apresentar como partícipe do cotidiano nacional.

A opinião pública ainda mal havia “digerido” os elementos positivos e inofensivos do japonismo misturados aa euforia das vitórias do “Grande Japão”, que a distância eram inofensivos. No entanto, quando os japoneses aqui aportaram, trouxeram consigo um “novo” ingrediente a ser adicionado ao imaginário coletivo sobre a figura do oriental: o perigo amarelo ou, como os políticos e intelectuais norte-americanos denominaram, new Oriental peril .


Notas:

1. “ Os voluntários da Morte”. In: O Malho . Rio de Janeiro, n. 97, ano III. 23 de julho de 1904, p. 18.

2. “Gueisha – Impressão” por Olgario Carneiro Cunha. Revista da Semana . Rio de janeiro. N. 290, 3 dedezembro de 1905, p. 2932.

3. O Malho , Rio de Janeiro, n. 94, ano III. 2 de julho de 1904, p. 20.

4. “Até no Japão!”. O Malho . Rio de Janeiro, n. 301, ano VII. 20 de junho de 1908, p. 10.

5. “Entre Asiaticos”. O Malho . Rio de Janeiro, n. 227, 4 de janeiro de 1908, p. 40.

6. “Immigração Japoneza”. O Malho , Rio de Janeiro, n. 325, ano VII. 5 de dezembro de 1908, p.9.

© 2007 Rogério Dezem

 

Rogério Dezem

Mestre em História Social pela FFLCH/USP (2003) e pesquisador do PROIN (Projeto Integrado Arquivo do Estado de São Paulo/Universidade de São Paulo desde 1997). Autor de Shindô-Renmei:terrorismo e repressão. Inventário Deops. São Paulo: AESP/ Imprensa Oficial, 2000 e Matizes do “amarelo”: a gênese dos discursos sobre os orientais no Brasil. Série Histórias da Intolerância. São Paulo: Humanitas, 2005.

Atualizado em Julho de 2007

 

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