Select a primary language to get the most out of our Journal pages:
English 日本語 Español Português

We have made a lot of improvements to our Journal section pages. Please send your feedback to editor@DiscoverNikkei.org!

Elementos formadores do imaginário sobre o japonês no Brasil - Parte 2

>> Parte 1

O Escrutínio Russo-Japonez: "o simphatico nippão" e o colosso russo

No início do mês de março de 1904, logo após o começo das hostilidades entre a Rússia e o Japão no Extremo Oriente, a revista ilustrada O Malho convidou seus leitores a participar de uma votação livre sobre quem venceria a guerra entre russos e japoneses. O chamado Escrutínio Russo-Japonez teve espaço em seis edições da revista,1 iniciou-se na primeira semana de março de 1904 e terminou com a publicação do resultado final da votação na primeira semana de abril. O escrutínio baseava-se em questionário simples composto de três perguntas:

1) Interessa-se pelo conflito Russo-Japonez?
2) Por qual dos dous paízes manifesta os seus votos?
3) Por que?

Esta interessante iniciativa surpreendeu até mesmo aos mentores da pesquisa. Na primeira semana o volume de cartas foi tão grande que, “mal poderíamos suppor que a nossa idéia tivesse o alcance que teve, e que milhares de respostas nos viéssem ás mãos."2 Notamos pela surpresa dos redatores que havia um certo ar despretensioso na iniciativa, pois o que poderia ser apenas mais um entretenimento da revista acabou se tornando um “espelho” da mentalidade de boa parte dos leitores da região Sudeste e Nordeste do país, e até mesmo de alguns estrangeiros aqui radicados. Ao final do escrutínio, a revista havia recebido um total de quase seis mil cartas, sendo que apenas uma pequena parcela do total enviadas à redação do O Malho foram publicadas. Destas, a maioria vinha assinada por pseudônimos.
No dia 10 de março, após a primeira apuração de votos, o resultado parcial foi o seguinte:

Pelo Japão ............... 549 votos.
Pela Russia .............. 231 votos3

Constatamos que essa margem favorável de votos ao Japão aumentou de forma significativa, mesmo após o ataque de surpresa efetuado pelos japoneses à base naval russa de Port Arthur um mês antes da pesquisa. A que se deveu essa simpatia pelo Japão? Seria apenas resultado da guerra em si, na qual o gigante russo era “malvisto”, pois representava o atraso de um “regime monárquico, autocrático” aos olhos da jovem República brasileira? Aliado a esse fato estaria o chamado “perigo eslavo”, identificado com os planos russos de expansionismo na Ásia. Ou essa simpatia já vinha sendo cultivada a um certo tempo, não só por aqueles que admiravam as “coisas do Japão” como também por aqueles que viam nesse pequeno país – que se desenvolvia a cada dia, afeito ao progresso e em sintonia com a civilização ocidental – um modelo? Admiração ou desconhecimento por parte dos leitores? Veremos que admiração e desconhecimento acerca do “outro” conviveram lado a lado, produzindo algumas distorções.

Em relação aos motivos que levaram o público a votar nos russos, as opiniões estão muito mais atreladas ao ódio ao Japão, visto como representante da raça amarela e com objetivos imperialistas do que admiração pela Rússia, avaliada como representante da raça branca e da cristandade . Exemplo dessa segunda afirmação pode ser constatada na resposta do leitor J. A. Lutz de São Paulo, que afirmava acompanhar com bastante interesse os combates, sendo favorável aos russos, pois o Japão deveria ficar: “(...) sem as azas com que pretende dominar o mundo (...) Corram mais alguns mezes e o japonez verá (...) o russo.”4

Alguns como o leitor Odagab Arievilonoch, evocavam a pátria e alertavam para o perigo de uma expansão japonesa no mundo. Por ser brasileiro e patriota , ele desejava a vitória russa, caso isso não ocorresse “(...) a Victoria dos filhos do Nippon poria em pratica o fallado ‘Perigo Amarelo’, não só para o Brasil como para o mundo em geral.”5

Em outras cartas favoráveis à vitória russa, os japoneses eram freqüentemente acusados de “haverem provocado covardemente a guerra”, “desleais”, “pérfidos”, “traidores”, “salteadores do Oriente”, “raça orgulhosa e semi-selvagem”. Para esse menor número de leitores que eram favoráveis a Rússia, a raça marela deveria ser destruída, isto é, derrotada para que o “perigo amarello fosse destruído.”

Para o leitor Anníbal Falcão, de opinião totalmente contrária aos japoneses, a maciça votação favorável aos amarelos ocorria devido à “falta de conhecimentos históricos e geográficos” por parte dos leitores, fato que desmerecia a própria raison d´être do escrutínio, que a seu ver, não tinha lógica. Por mais contundente que pareçam as opiniões com relação ao Japão e seu povo aqui explicitadas, essas foram a de menor número. Para se compreender os motivos que levaram essa simpatia pelo Japão e pelos japoneses, nos ateremos a variedade de adjetivos dotados pelos leitores para explicar os motivos pelos quais votaram a favor do Japão. O pequeno arquipélago nipônico era visto como “a nobre nação do sol levante”, “intrépido e destemido”, possuidor de uma “grandeza militar” e que “caminha a passos tão largos para o progresso”. Por seu turno, o povo japonês era, segundo a opinião dos leitores, um fiel retrato de sua nação. Naquele momento, se o governo japonês tivesse em mãos essa pesquisa ficaria satisfeito pelo modo como era visto “o heróico povo japonez, o mais progressista do mundo”. Idealizados sempre com “sympathia”, os japoneses eram freqüentemente citados como “civilisados”, “patriotas”, “valentes”, “briosos”, “pacientes”, “laboriosos”, “viris”, possuidores de “refinado gosto estético” e admirados por “desprezar a morte.”6

Mas quais seriam os motivos que levaram a optar pela vitória do Japão? Veremos que eles são os mais variados possíveis, desde questões políticas, militares, raciais até por “motivos pessoais”. Alguns dos que escreveram favoráveis aos japoneses conseguiram de forma lógica explicar suas razões. Foi o caso do leitor Raul Ribas da cidade de Botucatu, interior do estado de São Paulo, que entusiasmado pelo Japão respondeu:

    “(...) é uma nação digna de symphatia dos idéaes modernos, não só por ser mais fraca e enfrentar sobranceiramente o colosso e autocrata império moscowita numa lucta de vida ou morte, como ainda mais pelo espírito de nacionalismo de seus filhos, que conscientes das ambições da Rússia, souberam colocar a sua pátria na altura da eventualidade atual.” 7

A palavra fraca utilizada para definir a situação do Japão em comparação a Rússia foi usada não só por Raul Ribas, mas também por outros leitores. Nesse sentido, o fraco Japão, que não passava de um pequeno arquipélago em processo de modernização, tinha um triunfo: o espírito nacionalista de seus filhos . Elemento importantíssimo aos olhos do leitor para que o país do “sol levante” pudesse vencer a guerra.

Dentre as opiniões coletadas havia também aqueles em que a veia humorística e criativa do brasileiro transparecia. Como o leitor Pindoba Junior, que, por ser um “apreciador das perfumarias japonezas”, era favorável à vitória do Japão.8 O leitor que se autodenominou Seixas Vagabundo respondeu que por “não gostar das louras, não poderia amar os russos”, por isso era favorável ao “Japão até (...) dormindo.”9 Outros, como o leitor Juca, tinham tanta “paixão pelo Império do Sol” que se manifestava nele “a convicção de que houve equivoco quanto a minha remessa ao globo”, pois acreditava que em “logar de brasileiro” deveria ter nascido japonês... 10

Em 9 de abril de 1904, na edição número 82 de O Malho , notificou-se aos leitores o encerramento das votações. Após um mês, os redatores alegaram como motivo para pôr término ao escrutínio o excessivo número de respostas. O resultado final foi maracado pela “triunfal vitória japonesa”, como ocorreria na guerra um ano e meio depois:

Pelo Japão ............... 4.169 votos
Pela Russia ...............1.132 votos11

Baseando-se simplesmente nesses números, poderíamos afirmar que o mito da superioridade da raça branca havia enfraquecido no Brasil? Estaríamos na vanguarda de um novo padrão racial, no qual o amarelo encontrava um “lugar ao sol”? Longe disso. A nosso ver, esse resultado final expressa, além da notória simpatia e admiração pelo distante Japão e pelo povo japonês, fruto de uma idealização por boa parte dos leitores participantes, que ao se utilizar de estereótipos para definir seu voto demonstravam seu (des)conhecimento pelo “novo” Japão que nascia.

Pelo grande volume de cartas recebidas (cerca de seis mil) como também pelo conteúdo das opiniões externadas pelos leitores sobre os resultados da guerra, podemos visualizar um retrato do universo nacional que se transformava. Isso pode ser constatado pela pouca variabilidade do nível de informação sobre os dois países que haviam acabado de entrar em guerra. E para definir os motivos de seus votos, os leitores geralmente se utilizavam de estereótipos. Ao analisarmos os elementos presentes nos discursos produzidos, notamos que mesmo nas opiniões favoráveis aos russos é a figura do Japão e do japonês (avaliado de forma negativa) que representa o contraponto à imagem do russo.

Os leitores, na maioria das vezes, admiravam o Japão e os japoneses por um elemento que o Brasil e os brasileiros ainda não haviam conseguido consagrar: a nação . Transformando esse país em alvo de simpatia (mesmo que para certos leitores “inexplicável”), enquanto, os russos (mesmo pertencendo a raça branca ), governados pelo Czar Nicolau II, ao estarem associados ao regime monárquico autocrático, eram vistos negativamente pelos leitores que relacionavam à “decrépita” monarquia russa à extinta monarquiabrasileira.

Ao nosso ver, uma série de ilustrações (cartuns) e artigos publicados nas revistas ilustradas O Malho e Revista da Semana durante os anos de 1903 e 1908 tiveram um importante papel na (re)formulação dos discursos presentes no imaginário coletivo nacional. Constatamos que, a partir desse primeiro momento, o Japão e os japoneses passaram afazer parte do cotidiano da imprensa ilustrada brasileira. Este será o tema de nosso terceiro e último capítulo na próxima semana.

Parte 3 >>

Notas:

1. O Malho , Rio de Janeiro, n°s 77,78,79,80,81 e 82, ano III. 5 de março a 9 de abril de 1904.

2. O Malho , Rio de Janeiro, n. 78, ano III. 12 de março de 1904. p. 17.

3. Ibidem.

4. Ibidem.

5. O Malho , Rio de Janeiro, n. 81, ano III. 2 de abril de 1904, p. 15.

6. O Malho , Rio de Janeiro, n°s 77,78, 79, 80, 81 e 82, ano III. 5 de março a 9 de abril de 1904.

7. O Malho , Rio de Janeiro, n. 80, ano III. 26 de março de 1904, p.22.

8. Idem. p. 19.

9. Ibidem

10. O Malho , Rio de Janeiro, n. 80, ano III. 26 de março de 1904, p. 20.

11. O Malho , Rio de Janeiro, n. 82, ano III. 9 de abril de 1904, p. 21.

© 2007 Rogério Dezem